José Benício

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Contos

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Cine Alvorada

Claudinho já não aguentava mais a tortura que sofria todos os anos quando ia passar férias na casa do primo Julio, mais velho seis anos e que já era freqüentador assíduo do famoso cine Alvorada.
E pior do que não poder ir ver os filmes chamados “proibidos” era ouvir os relatos do primo descrevendo as cenas picantes das musas da época: Vera Gimenez, Sandra Bréa, Sandra Barsotti, Vera Fisher e outras menos famosas, mas não menos desejadas.
Para a época as cenas picantes se resumiam em nudez ou semi nudez, uns beijos e mais nada, a maioria voltado para a chanchada.
Mas isso não importava em nada para o jovem que sonhava em virar adulto, nos seus doze anos ainda perdia noites de sono imaginando o dia em que ele poderia finalmente chegar na frente do porteiro do alvorada e entregar o bilhete, torcendo para que ele pedisse a carteira de estudante ou a identidade para a comprovação dos seus dezoito anos! Assim a vingança seria perfeita! Provaria que tinha os tais dezoito anos.
Posso falar um pouco mais do Cine Alvorada, aquele cinema de bairro, ainda novo, poltronas bem certinhas, as cortinas ainda não totalmente empoeiradas, pelo menos não parecia.
Era o máximo para o jovem o dia em que ele fosse visto entrando, no meio dos rapazes da cidade, talvez pouquíssimas moças, afinal o filme em questão não era para moças de família, estamos nos últimos anos da década de sessenta, ainda em plena ditadura militar, onde os costumes passavam sempre pelo crivo da velha família brasileira.
Claudinho já havia planejado muitos truques para tentar burlar o seu Jorge, porteiro do Alvorada, mas contra ele existia o fato de ser vizinho do seu Jorge, esse conhecia seus tios e sabia que a idade daquele guri ainda regulava com a do seu filho mais velho, o Zezinho.
E para piorar,  Zezinho conseguia ver os filmes proibidos na clandestinidade, na sala de projeções ou quando o cinema estava fechado ao público, isso não era justo, pensava Claudinho:
“Isso é nepotismo barato!”
E Zezinho também tirava sarro da cara dele se vangloriando que viu as musas peladinhas. Claudinho só não voava no pescoço do colega porque ainda tinha a esperança de ser convidado num dia desses para ver também.
Os anos foram passando e Claudinho já estava com aquela mudança da voz, que ficava rouca, que deixava o fino da voz de um menino para virar a voz de um rapaz.
Rapaz ainda não realizado, ainda faltava ir ao Alvorada e ver o filme em cartaz que dizia:
PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS.
Claudinho se preparou, colocou a velha calça jeans, camiseta com a estampa dos The Beatles preta, cabelos compridos, identidade no bolso, já não era mais seu Jorge o porteiro, mas a vingança seria plena, afinal era o cine Alvorada!
A sessão inicial era às 18:00 hs, Claudinho fez questão de chamar seu primo, aquele que se vangloriava à contar as cenas dos filmes proibidos, ele precisava de testemunhas para esse dia tão especial.
Portaria se abrindo, Claudinho foi o primeiro da fila, com seu bilhete na mão esquerda e a mão direita no bolso da calça, pronto para tirar sua carteira de identidade como o pistoleiro a sacar sua arma letal na hora do combate!
O porteiro o olhou de maneira fria, fez cara de quem não acreditava muito na idade do cliente. Claudinho se animou com aquela possibilidade de vingança e pensou:
“É agora, ele vai se ver comigo”.
O porteiro esticou a mão, pegou o ticket e sem ao menos olhar para os olhos dele e  resmungou:
“Pode entrar, hoje não vou pedir a identidade de ninguém”
O primo Julio soltou uma gargalhada.
Claudinho nem aproveitou as cenas picantes, passou o tempo todo se remoendo.
- Porque seu Jorge foi se aposentar?

Um visitante muito estranho

Minha velha mãe, que na época era bem nova, contava-nos historias quando nos reuníamos na nossa casa, os quatro filhos, eu e mais três irmãs e ela, cheia de memórias da sua infância.
Eu preferia as de terror, às vezes ela preferia ler as historias da coleção, toda encadernada, capas coloridas, pesados livros com muitas coisas interessantes.
Mas eu ficava pedindo para que ela contasse os "causos" que ela trazia lá da roça, onde passou sua infância.
Uma dessas estórias eu nunca mais esqueci, para mim era digna de Alfred Hitchcock e era mais ou menos assim:
Um jovem casal, moradores da roça, casam-se bem cedo, ele era muito trabalhador e muito honesto, passava o dia na lida da lavoura, tinha um pequeno pedaço de terra, onde mantinha uma pequena criação de gados, alguns cavalinhos e uma plantação de milho.
Sua esposa também de origem modesta, era a mulher ideal, muito bonita, trabalhadora e muito carinhosa.
A vida seguia normalmente mas eles começaram a sentir a falta de mais alguma coisa na casa, faltava a alegria de ter uma criança.
Os dois concordavam plenamente e tentavam todos os meses que ela engravidasse, mas todos os meses era aquela decepção.
Aconteceram algumas brigas, ele não se conformava pois tinha a saúde perfeita, era jovem e ela também, porque não conseguiam trazer ao mundo aquele filho tão sonhado?
Naquela época não havia os recursos que a medicina oferece, eles eram bem humildes, a cidade grande ficava muito longe, então o jeito era irem tentando.
Passaram mais alguns meses e sem nenhuma novidade.
Porém, num final de tarde, quando o jovem vinha à cavalo pelo caminho de terras mais distantes, percebeu um barulho estranho. Diminuiu as passadas do cavalo, segurando no freio, o cavalo quase empinou com ele.
Estava de frente com uma cena pouco provável naquele mato, sem nada por perto.
Era um choro de bebê, não seria possível, como um bebê inocente estaria ali, abandonado?
Estava enrolado numa toalha bem branca, ao pé de uma árvore frondosa.
Ele olhava para os lados e não encontrava explicação, desceu correndo do cavalo e se abaixou para ver de perto, era um lindo bebê, cabelos pretinhos, olhos bem grandes e abertos, pretos também, era um lindo bebê.
Não havia nada a se fazer a não ser pegá-lo nos braços e correr para casa.
Ao chegar, sua esposa estava no quintal varrendo com uma vassoura de palha e levantando muita poeira.
Ela não acreditou quando ele entrou em casa com aquela criança linda nos braços.
Eles se olhavam e se abraçaram, estava ali o bebê que eles sempre desejaram?
O bebê já não chorava, mas estava inquieto, devia estar com sede, fome, precisando de um banho.
A jovem correu para os preparativos, já havia um quartinho todo montado, com roupinhas, cama e armário, tudo à espera do sonhado filho.
A alegria estava plena naquela humilde casa, agora sim, o casal já não brigava, tudo era motivo para dengos com o novo bebê.
Mas eles decidiram não contar nada para os parentes e vizinhos, as visitas eram muito escassas e eles temiam que divulgando o caso pudessem chamar a atenção da polícia e os verdadeiros pais acabariam voltando para buscá-lo. Isso já estaria fora de questão para eles.
Foram passando as semanas, a rotina voltara ao normal, bem cedo o jovem saía para a roça,deixando o bebê com a mãe cheia de carinho.
Mas na semana seguinte, ao chegar em casa, ele ouviu um choro muito forte, era o bebê que gritava sem parar, ele entrou correndo e quis saber o que estava acontecendo.
Ela estava com ar de muita surpresa, disse-lhe que não sabia o que era aquilo.
Estava tudo bem quando de repente ele começara a chorar.
O jovem pegou o bebê dos braços da mãe e não demorou a perceber algumas marcas estranhas, roxas pelo corpo. Não poderia ser  o que estava parecendo. Marcas de maus tratos?
Ele mostrou para ela e à deixou mais espantada ainda. Mas como seria possível? Ela havia acabado de dar banho nele e não havia marca alguma.
Com a presença do pai o bebê parou de chorar. Até que adormeceu como um anjinho.
Eles conversaram sem entender, ele perguntou sobre as marcas, mas ficaram nisso.
No dia seguinte repetiu-se a cena, mal o jovem apontava na porteira e o bebê começava a chorar de maneira desesperada. Quando eles iam ver lá estavam marcas de surra, marcas de roxo pelo corpo todo, a aparência do bebê era de medo quando a mãe tentava pega-lo ao colo.
As brigas foram inevitáveis, a casa já não era a mesma, ele não poderia entender como aquilo estava acontecendo. Ela seria um monstro se estivesse mesmo surrando aquela pobre criança indefesa.
Mas bastava o pai pegá-lo no colo que ele mudava, sorria, agia como uma criança feliz.
Nos noites seguintes o clima estava piorando. A desconfiança do jovem pai crescia, ela devia estar maltratando o bebê, não teria outra explicação.
Repetiam-se sempre aquele fato, ele saía, tudo normal, ela não percebia nada de anormal no bebê, comia, dormia, brincava, mas ao entardecer voltava o inferno.
Até que uma noite eles tiveram a idéia de fazerem um teste.
Ele sairia de casa e ficaria à espreita, sem se afastar, para ver o que realmente se passava naquela casa.
E foi assim, ele escondeu-se atrás da cerca de casa e observou tudo. Tudo normal, a comidinha, o banho, a tranqüilidade do bebê, enfim, uma casa normal.
Assim foi o dia inteiro, até que ele foi se aproximando, fingindo estar chegando do trabalho. Nesse instante os choros começaram, berros de sofrimento e quando olhavam em baixo da frauda, novas marcas de tortura, até uma queimadura estava para quem pudesse ver.
Eles se olharam e o jovem chorando e muito emocionado tomou a decisão.
Vamos levá-lo de volta onde o encontrei, isso não pode ser normal, não vamos conseguir viver com essa agonia.
Assim fez o jovem, bem cedo selou o cavalo e partiu com o bebê no colo, bem devagar, ele ainda estava dormindo.
Depois de algum tempo foi chegando ao mesmo ponto onde o encontrara. Desceu do cavalo e deixou o bebê, enrolado numa toalha bem limpa. Olhou para os lados, ninguém estava por perto, com certeza.
Foi se afastando, subiu no cavalo e começou a se afastar, quando de repente ouviu uma explosão, um barulho sem eco, abafado e uma cortina de fumaça vermelha subiu ao céu.
Era o bebê inofensivo, que estava ali, um cheiro forte de enxofre tomou conta do ar.
O cavalo se assustou e deu um pulo.
O jovem saiu em disparada, sem olhar para trás, tomado de um pavor sem igual.
Era o final daquela adoção amaldiçoada!

Encontro marcado


Eduardo mal tinha completado vinte e oito anos e não resistiu ao que ele
chamava de martírio em vida, comprou uma pistola automática e uma passagem
para o interior, escolheu no sorteio entre cinco cidades que ele não
conhecia. Achava que ao menos poderia fazer algo de interessante antes do
ato final.
Domingo nascia e a manhã parecia entender o drama do cidadão, estava feia,
cinza e um pouco fria. Ele nem percebeu que assim estava, afinal nos
últimos anos da sua vida, todos os dias amanheciam cinzas para ele, como
nos subúrbios londrinos, onde viveu por três anos.
Eduardo tomou seu banho, nem fez mala, para onde iria não teia necessidade
das coisas materiais, preparou uma mochila velha, colocou uma toalha
enrolando sua pistola, uma garrafa d’água e seu bloco pautado e uma caneta
antiga, presente do seu falecido avô.
Caminhou decidido pelas ruas ainda desertas do bairro, chegou à estação de
trem e conferiu seu relógio com o imenso relógio da estação. Faltavam
cinqüenta minutos, daria tempo para escrever alguma coisa. Não pensou em
cartas, nada disso. Nem para os pais, tão pouco para sua ex-esposa, nenhum
amigo nem irmão.
Teria que ser um poema ou algo parecido, queria deixar a vida com um pouco
de estilo, mesmo sabendo que o que estava prestes a fazer era um ato de
covardia total.
Mas sua mente já estava plenamente convencida que esse seria o caminho.
Quem sabe o Mundo melhorasse sem ele, o mesmo Mundo que o ignorou por todos
aqueles longos vinte e oito anos.
Começou a rabiscar algumas coisas, sem se incomodar com o que acontecia ao
seu redor.
Pessoas passando, a maioria olhando para o chão, nem com tanta pressa por
ser domingo, mas sem demonstrar satisfação.
O tempo corria e várias vezes Eduardo rasgava o papel, não estava
conseguindo encontrar inspiração, pensou que isso seria bobagem, pra que
deixar poemas ou cartas? Quem resolve abreviar a vida não precisa se
despedir, os motivos? Não importa a ninguém, só interessa a quem está
partindo, ele sabia que o umbral o aguardava ansioso para uma boa temporada
de “férias”.
O poema até que foi iniciado, quando o trem encostou na plataforma.
Logo se preparou, entrou em busca do seu lugar, sem reparar que uma linda
jovem estava na poltrona ao lado e que o fitava sem conseguir disfarçar.
Trem em movimento, Eduardo logo buscou seu bloco e continuou seu poema de
despedida, a jovem, linda moça, bem vestida e com ar de muito interesse no
homem com semblante fechado, circunscrito e longe dali.
Começou a escrever o tal poema, o trem deslizava rápido pelos trilhos, era
uma corrida para a morte o que na verdade ele estava fazendo:

Desabafo de um suicida

Até onde meu Deus
A vida é individual?
Será só na maternidade
E depois no funeral?
As qualidades fogem pelas mãos
Até quando devo mentir
Que sou realizado
Que amo e sou amado?
Não suporto tanta hipocrisia
Que sempre disfarço
No compasso da minha pobre poesia
O trem corre relutante e forte
Lá fora a vida, aqui dentro e morte!

Leu e releu, achou ruim, pensou em rasgar a folha.
Carmem era a passageira que atenta o observava sentiu vontade de ler, quase esticou o
pescoço, mas estava com medo que ele percebesse sua curiosidade.
O então suicida sentiu vontade de chorar, sem pensar muito, arrancou a
folha do caderno e foi amassando, amassando bem devagar, enquanto seus
olhos se perdiam nas paisagens que corriam pela janela.
Sem perceber deixou a folha amassada cair entre seu banco e o braço da
poltrona. Sentiu vontade de se levantar, queria caminhar um pouco, talvez
desistir, descer na próxima estação.
A jovem ficou esperando os próximos gestos do rapaz, mas ela queria mesmo
era ler o que estava naquele papel.
Quando ele finalmente levantou-se e foi em direção ao vagão restaurante,
ela rapidamente se inclinou e pegou a bola de papel que estava ali,
espremida.
Foi rápida como uma ladra e instintivamente guardou em sua bolsa para
garantir que ninguém a visse com o objeto do “furto” nas mãos.
Agora seria angustiante para ela esperar a oportunidade para ler, só mesmo
indo ao banheiro. Olhou para os lados para se certificar que ninguém a
estava observando.
- Tudo certo, vou ao banheiro, pensou.
E caminhou em direção ao banheiro, que passava necessariamente pelo vagão
restaurante. O rapaz lá estava, sentado ao balcão bebendo um café e com o
olhar distante. Ela passou bem perto dele, mas não fez questão que ela a
notasse, afinal ela acabara de “roubar” algo bastante pessoal daquele rapaz
tão misterioso e charmoso.
Mal entrou no banheiro apertado e que balançava bastante, abriu a bolsa e
desamassou aquela bola de papel com uma rapidez e cuidado de um experiente
detetive.
Começou a ler e de cara se surpreendeu com o título: “Desabafo de um
suicida”
- Meu Deus! Pensou ela, não pode ser. Continuou a leitura e foi gostando da
parte poética ao mesmo tempo em que se preocupava com o conteúdo dos
versos.
- Suicida! Não pode ser, ele deve estar sendo apenas um poeta, que quase
sempre finge em nome da criação, poetas são sonhadores, fatalistas, adoram
o sofrer e encontram no sofrimento a tal inspiração para os poemas.
Leu e releu mais duas vezes, o trem foi parando pois estavam chegando à
primeira cidade do trajeto, ela se apressou em guardar o poema e sair do
banheiro, quem sabe esse poeta resolva descer e ela nunca mais terá a
chance de vê-lo, talvez conversar e se aquele poema for mesmo o que ele
está sentindo, dissuadi-lo dessa idéia louca.
Retornando ao vagão percebeu que o rapaz já estava sentado, com um ar meio perdido, olhando ela janela do trem.
Carmem se acomodou na sua poltrona e fingiu ler seu livro, por sinal, de poesia, uma coletânea de Ferreira Gullar.
Logo a viagem seguiu, com a velocidade constante e aquele balanço normal dos trens.
Ela começou a imaginar uma forma de se aproximar daquele homem charmoso e ao mesmo tempo misterioso.
Mas nada acontecia para Eduardo, que apenas esperava chegar ao destino e dar cabo logo à sua vida.
Seguindo seu instinto feminino de conquista, Carmem se levanta e provoca um esbarrão no  Eduardo, que até então estava ali como se não estivesse, mas que não resistiu ao toque em seu braço com as ancas da bela mulher. Olharam-se rapidamente, ela querendo se desculpar e ele sem palavras para descrever o que sentiu com aquele esbarrão tão suave e sensual. Afinal a jovem possuía um corpo escultural, cintura bem fina, altura mediana, belos cabelos castanhos e encaracolados, com um sorriso de parar o quarteirão, além daquelas ancas maravilhosas.
Eles trocaram sorrisos, ela se desculpando e ele é claro, dizendo que não foi nada.
Ela então continuou sua encenação e teve que seguir até o vagão do bar, Eduardo percebendo que ela havia se sentado no banco ao redor do grande balcão, não hesitou em se dirigir também para lá. Ele sentiu que precisava falar alguma coisa com aquelas ancas, quer dizer, com aquela mulher.
A conversa fluiu sem problemas, afinal ambos estavam interessados que assim o fosse.
Pediram uma cerveja e uns petiscos, riram um pouco do desajeitado garçom, que parecia de primeira viagem e falaram de muitos assuntos, entre eles a poesia.
Carmem adorava poesia e puxou esse assunto, perguntou se Eduardo gostava ou se escrevia poemas, ele ficou um pouco relutante, não se achava um poeta, escrevia às vezes quando estava passando por alguma situação especial, portanto dizia sempre que não era poeta, apenas rabiscava uns sentimentos.
Ela queria tocar no assunto para ver se conseguia arrancar a motivação do poema que ela havia lido, mas que não poderia confessar, afinal o poema havia sumido na poltrona de Eduardo.
Ela foi direta na pergunta:
- Então quando você escreve um poema está retratando os teus sentimentos naquele momento?
Ela esperava ouvir outra resposta, mas Eduardo também foi direto na resposta:
- Sim, tudo que escrevo é o que estou sentindo, passando naquele momento.
Hoje mesmo escrevi um poema, mas acho que o perdi, gostaria de encontrar, talvez pudesse mudá-lo, afinal como os sentimentos mudam, os poemas também têm esse direito.
Ela se mostrou confusa, como na verdade estava e mesmo com medo de se atrapalhar continuou no mesmo tema
- Então você quer me dizer que está mudando de vontade, assim, de repente? O que o fez mudar e o que estava pensando quando escreveu o tal poema?
Eduardo sentiu um interesse repentino da jovem e mesmo assim não deixou de ser sincero.
- Eu estava querendo me matar até meia hora antes.
Carmem levou um susto e segurou a mão dele com força.
- Não fala isso. A morte não pode ser remédio para nenhum mal, você é tão jovem e cheio de vida! Deve estar brincando não é?
Ele a olhou firme nos olhos e não mentiu novamente.
- É verdade, dentro da minha mochila levo uma pistola, eu pretendia acabar com a minha vida dentro de mais quatro estações. Minha vida até hoje não teve o menor sentido. Se fosse te contar você acabaria por concordar.
- Mas a verdade é que alguma coisa me fez mudar de idéia, não sei se foi a vagem, o balançar do trem, ou...
Ela ficou esperando a continuação.
- Ou... ou seu esbarrão me fez acordar.
Eles deram uma grande gargalhada e já estavam mais perto, os braços colados não resistiram a um abraço bem demorado e carinhoso.
Ela estava com lágrima nos olhos, o coração batia num ritmo acelerado. Fechou os olhos e pensou:
- Meu Deus! Será que encontrei o homem da minha vida?
- Será que salvei esse homem da morte?
- Não pode ser, não pode.
- Ele é tão bonito e sensual, só pode ser um sonho.
No mesmo instante, Eduardo pensava:
- Não pode ser meu Deus! O que está acontecendo comigo? Eu estava certo e agora essa mulher maravilhosa entra assim na minha vida, com toda essa atenção comigo. O destino não pode ser assim tão bom para mim, ele nunca foi.
Os dois se olharam por alguns segundos após o longo abraço e um beijo foi inevitável acontecer.
Um beijo daqueles de tirar o fôlego, suas línguas passeavam e se acariciavam sem a menor cerimônia, a pulsação aumentava em seus corpos, a química do amor estava se dando.
O garçom desajeitado logo se afastou para não atrapalhar e mostrou não ser assim tão desajeitado.
Como o lugar ao lado de Eduardo estava vago, foi fácil eles continuarem a viagem juntos, ela mostrou sua antologia do Ferreira Gullar, que era também um dos poetas preferidos de Eduardo.
Mas o tempo estava correndo e a estação final se aproximando. O que seria agora o final da linha para Eduardo passou a ser o ponto de regresso e Carmem estava indo para visitar uma tia querida, que morava há anos ali e que ela estava visitando como sempre fazia, de dois em dois meses.
Ela quis saber o que ele pretendia fazer, de repente o convidaria para ir com ela na casa da tia.
Ele não queria incomodar, pensou em se hospedar em algum hotel nas redondezas da estação ferroviária e no dia seguinte voltar. Ou até nunca mais voltar, para quem ia morrer, qualquer destino aqui na terra seria viável.
Ele falou isso usando outras palavras, eles riram muito e então ela o convidou para acompanhá-la até a casa da sua tia, tinha um quarto de visitas e a sua tia não se incomodaria em deixá-lo passar uma noite apenas.
Ele não queria, ela insistiu até que ele aceitou a oferta.
Na verdade ele queria mesmo era levar Carmem para o hotel com ele, será que ela aceitaria assim de primeira um convite desses?
Não quis arriscar e nada disse nesse sentido.
Então desceram do trem e foram caminhando juntos, como um belo casal que eram.
Quem os visse nunca imaginaria que eles se conheceram naquela viagem.
Carmem estava feliz, se sentia muito bem com Eduardo e sabia que ele também demonstrava felicidade.
O ponto de taxis era na segunda esquina da estação, eles caminhavam tranqüilos, quando vendo uma carrocinha de pipocas, Eduardo perguntou se ela queria, já haviam passado um pouco. Ela sorriu e aceitou.
Ele pediu que ela esperasse um pouquinho só.
Estava tão feliz que não percebeu um carro que vinha em grande velocidade do outro lado da rua, foi coisa de segundos.
Uma freada brusca, um barulho imenso e um grito de Carmem, que a tudo assistiu sem poder fazer nada.
Eduardo foi lançado sobre os carros que estavam estacionados e caiu já sem vida.
Carmem gritava desesperada, não podia acreditar que aquilo estava acontecendo.
Uma das pessoas que acompanhava a cena pegou a mochila de Eduardo e a levou para Carmem.
Ela ainda sem estado de choque apenas abriu a mochila e constatou uma toalha toda enrolada e no meio dela uma pistola prateada.
Era verdade o que ele contou, era verdade seu poema, era verdade que ele havia desistido de morrer por tê-la conhecido, mas a morte não se deu por vencida, veio buscar Eduardo no ponto em que ele havia marcado para morrer.

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