José Benício

Ir para o conteúdo

Menu principal

Crônicas

Textos

Três mosqueteiros brazucas na Caparica

Os brazucas:
Eu, Celso e Luis Henrique (em memória)

O cenário era perfeito, o enredo também:
Três brazucas em Portugal, sem as esposas, sem as namoradas e com tudo à conhecer na terra de Camões e Fernando Pessoa, para ficar apenas em dois gênios da literatura luso-fônica.
Era um sábado e o verão estava à pleno, como se dizia por lá.
Alugamos um carrinho popular e traçamos a rota:
Vamos conhecer a Caparica, mais precisamente,a praia do Meco, onde soubemos ser uma praia de naturalistas, nudistas, peladões ou o que mais possa se qualificar nesse perfil.
Acordamos cedo, afinal não sabíamos onde era a tal praia famosa.
Um mapa nas mãos, muitas brincadeiras e amizade boa, entre três amigos dispostos a passar um sábado bem diferente, afinal nenhum de nós já havia estado em uma praia dessas.
Partimos para a aventura e logo que atravessamos a ponte 25 de Abril já tivemos que parar para nos informar sobre a direção.
Não foi difícil encontrar um português de boa vontade para nos dar as dicas, mas sem antes dar um sorrisinho maroto, quando pronunciamos o nome Meco.
Achamos estranho, mas como sabíamos que era uma praia de nudismo, as pessoas poderiam estar envergonhadas ao dar informação.
Seguimos a viagem, o sol estava maravilhoso, em junho o verão português não deixa nada a desejar para o nosso verão brazuca.
Estávamos enrolados, apesar do mapa e das informações a viagem já estava em quase 3 horas, quando finalmente avistamos a placa tão esperada:
Praia do Meco.
Mal chegamos e já vimos uma linha divisória entre os adeptos do naturalismo e os que não se sentiam assim não “naturais”, eu e o Luis Henrique já tínhamos decidido, não iríamos andar tanto por tanto tempo para não nos misturar aos peladões e principalmente, entre as peladonas.
O Celso, um cara mais tímido, não se sentiu à vontade e foi logo avisando que não seguiria para a esquerda (área dos peladões) e que ficara na linha divisória, com sua sunga normal e que nos aguardaria ali.
Tudo tranqüilo, nosso grupo era unido e respeitamos a sua opinião, mas fomos logo caminhando para o lado esquerdo e logo estávamos como viemos ao mundo.
Uma sensação bem diferente, uma excelente sensação de liberdade, me senti um índio na sua selva a caminhar livre, sem embaraços e essas roupagens que nos são impostos pela sociedade civil.
A segunda decisão foi a de dar um bom mergulho, a água parecia perfeita, bem limpinha.
Foi uma surpresa apenas quanto à temperatura, estava bastante fria, mas nada que nos impedisse de continuar, afina estava um calor enorme.
O único problema foi a saída da água, quando percebemos que nossos “atributos” estavam totalmente encolhidos, minúsculos eu diria. Rimos bastante, mas era natural, afinal com aquele gelo todo...
Caminhamos então na busca de ver belas mulheres ali, tranqüilas a desfiar suas boas formas e corpos esbeltos, estávamos na Europa e com certeza veríamos belas espécimes de fêmeas.
No início percebemos que não estávamos com muita sorte. Encontramos caminhando em nossa direção algumas coroas, daquelas bem coroas mesmo, tudo caído e geralmente com alguma criança pelas mãos. Tudo bem, afinal era só o início,a praia era extensa e com certeza ainda teríamos muitas beldades a ver naquela empreitada.
Notamos também a freqüência muito alta de camaradas, duplas de homens andando juntos, até então não ligamos, afinal nós também estávamos andando juntos, apenas não estávamos de mãos dadas.
Isso já foi um primeiro baque. Esquisito esses caras ali andando de mãos dadas, concordamos e rimos muito.
Lá pelo meio do caminho, avistamos algo mais preocupante, um enorme cão veio em disparada em nossa direção, estranho aquilo, seria um ataque?
Esse enorme cão a principio vinha junto com mais dois tipos daqueles suspeitos e de repente começou a carreira em nossa direção.
Ficamos meio estáticos sem saber o que fazer.
Luis Henrique gritou:
- Vamos entrar na água, esse FDP desse cachorro está vindo de maneira esquisita.
Não hesitamos em entrar na água e o mais engraçado é que o Luís Henrique, que estava fumando, começou a ameaçar o cão com o cigarro:
- Vem que eu te queimo seu FDP!
A cena era muito engraçada, mas na hora estávamos tensos, que situação heim?
O cão parou na nossa frente e ficava olhando fixamente para nossas “protuberâncias” e de forma que parecia faminto, tentando escolher o que lhe apetecesse mais.
A gente ali parado e rindo, mas sem estarmos muito à vontade, é claro.
Mais alguns instantes e o cão desistiu.
Pensamos:
- Deve ter achado que o almoço dele estava muito fraco”
Rimos muito e continuamos nossa caminhada.
Mas nada de vermos beldades, eram apenas crianças com as velhotas e casais de tipos suspeitos, aliás, casais Gays mesmo!
Desistimos e começamos a voltar.
Celso havia ficado na dele, ali sentado, começamos a achar que ele é que fez a escolha certa.
Na nossa volta, novamente depois de alguns minutos, que mais pareciam horas, avistamos o famigerado cão e olha que ele vinha novamente em disparada na nossa direção.
Olhamos um para o outro e dissemos:
- Pelo amor de Deus, lá vem aquele FDP novamente!
O mesmo ritual se repetiu:
O cão ali na nossa frente, nós dois cobrindo as “protuberâncias” e ele com aquela cara de quem quer escolher qual atacar.
Nisso os caras que estavam com o cão vinham chegando.
Luís Henrique, que era muito mais inflamado do que eu, não se conteve e foi na direção dos dois logo aos berros:
- Oh seus boiolas, não estão vendo esse cachorro atacando as pessoas?
Os caras se olharam e responderam simplesmente:
- Esse cão não é nosso.
Pronto, dei uma gargalhada e seguimos, fomos rindo e nos sacaneando muito sobre as furadas em que nos metemos.
E para piorar a situação, quando estávamos a poucos metros do nosso amigo Celso, que estava sentado, tranqüilo na areia, vimos que perto dele estava um casal, mas casal mesmo, uma gostosona e seu namorado.
Olhamos um para o outro e dissemos:
- Vamos correr, ali tem uma gostosona!
Apertamos o passo, mas para nosso azar, o casal já estava se preparando para irem embora, ou seja, se vestindo.
Foi por um triz, e o nosso amigo sortudo esteve o tempo todo observando a bonitona peladinha.
Dessa vez foi ele que nos sacaneou e veio contando vantagem para cima da gente.
Já era tarde, fomos procurar uma barraca para comermos alguma coisa e bebermos umas cervejas.
O nosso sábado foi realmente único, disso ninguém poderia reclamar.
Mas para finalizar a nossa saga com chave de ouro, quando chegou a segunda-feira, os amigos portugueses vieram nos perguntar onde passeamos no final de semana.
Nós três sem o menor receio fomos contando, mas fomos interrompidos logo que mencionamos o nome Meco:
- O que? Foram no Meco? Muitas gargalhas se seguiram e depois a explicação:
- Oh brazucas, vocês foram na praia dos paneleiros!
E foi uma gozação só, pela semana inteira.

Esse texto é em homenagem ao amigo Luis Henrique, mais conhecido como “cabelo”, que já partiu para outras viagens.

Viagens pelos coletivos – parte I

Vou contar dois fatos ocorridos comigo nessas tão confortáveis e tranqüilas viagens nos nossos ônibus urbanos.
O primeiro se deu numa volta para casa, não me recordo se voltava da faculdade ou do trabalho, o importante a ressaltar era que estava numa autêntica “lata de sardinhas”, no corredor do ônibus, os pés quase levitavam e se levitassem não teria mais espaço quando descesse para o chão.
O calor nem preciso mencionar, nossa cidade além de ser a Cidade Maravilhosa é a cidade que oferece de graça um SOL para cada habitante.
A viagem seguia como dava para quem estava em pé, para os sortudos sentados e para os que chegavam a cada parada entre as tantas no percurso centro da cidade e Benfica.
Quando me preparava para descer, aquele famoso e baixinho “Dá licença, por favor” repetidos várias vezes, já que eram inúmeros os obstáculos (pessoas) na minha frente.
Também querendo descer estava um rapaz alto e magro, ele ia abrindo caminho e eu atrás.
Acontece que na frente dele havia uma senhora baixinha, bem baixinha e gordinha, lá vem as gordinhas na minha história, mas era verdade, juro.
Pois bem, o rapaz que abria caminho se deparou com essa senhora, ele pediu licença mas ela parece que não ouviu, ou ouviu e não se mexeu, ou por não querer ou por não ter condições para isso.
O rapaz insistiu e pediu mais alto: “Dá licença minha senhora!”
Ela continuou na frente e como a parada estava chegando o rapaz ficou nervoso e disparou:
“Essa gorda aqui não quer sair da frente!”
Foi o que faltava para a senhora, que até então parecia uma indefesa senhora gordinha para ela se virar e começar a xingar o rapaz.
Eu atrás do rapaz na expectativa da resolução do caso para que pudesse descer.
Mas a coisa piorou quando ela falou bem alto para o marido dela, que estava na sua frente.
- Oh fulano, esse abusado aqui me chamou de gorda, dá um tiro nele!
Nisso, o senhor em questão, um baixinho magro, careca e de aparência também inofensiva, foi buscar a “capanga” que tinha na cintura, como quem vai sacar um revólver e atirar a queima roupa no rapaz.
Os passageiros ouviram aquela frase: “Dá um tiro nele” e foi aquela gritaria geral.
O espaço que não havia, como por um passe de mágica, surgiu no corredor.
As pessoas que estavam ali se jogavam em cima de quem estava sentado, inclusive eu.
Mas minha posição era ingrata, estava bem atrás da futura vítima!
Ele se esquivava em várias direções e eu era obrigado a fazer o mesmo, um pânico geral.
Eu pensei: “É agora que vou levar um tiro de graça”
O rapaz abria os braços pedindo:
“Por favor não atire!”
E o ônibus em alta velocidade fazendo uma curva bem aberta, todos se desequilibrando e gritando:
“Não!!”
Até que o ônibus parou sem que o disparo se desse.
Eu nervoso fui descendo, o rapaz ficou pálido, talvez o mais pálido de todos.
O casal “metralha” desceu no mesmo ponto que eu e para minha surpresa, a tal baixinha e gordinha reclamava com o marido:
- Seu frouxo, eu falei para dar um tiro nele!
Nesse dia fui chegando em casa e pedindo água para minha santa mãezinha, que não poderia imaginar o que seu filho acabava de passar em mais uma aventura urbana na cidade maravilhosa.

A gordinha, a roleta e o bêbado

Conta  minha irmã Vera, que um dia estava numa naquelas viagens rotineiras, entre o trabalho e sua casa, quando testemunhou uma cena muito interessante no coletivo, como nós aqui do Rio de Janeiro chamamos carinhosamente os Auto-carros (Lisboa), Bus (EUA), buzum (São Paulo) e vai por aí à fora.
Bem, voltando ao fato em questão, minha irmã percebeu que entrou pela porta traseira, onde aqui no Rio de Janeiro, geralmente entram os passageiros, um senhora com um peso notadamente acima do normal, ou seja, uma gordinha dos seus quarenta e poucos anos, até aí nada de anormal.
A senhora colocou-se em posição de pagar a passagem e passar, como normalmente se faz, mas foi interrompida pelo trocador, o que levou ao seguinte diálogo:
- Por favor senhora, entre pela porta da frente.
Ela olhou feio para o trocador, um sujeito magro, cara de cansado, suado, com a barba por fazer, mas com a devida autoridade que o cargo lhe confere.
Ao que respondeu a senhora gordinha:
- Por que? O senhor acha que eu não vou passar na roleta?
Nisso os passageiros que estavam sentados na traseira do coletivo, entre eles, minha irmã, foram atraídos pela cena, que prometia ser interessante.
O pobre do trocador sem querer ser inconveniente, mas sem muito preparo para isso,
tentou consertar, com um certo receio quanto à reação da distinta passageira.
- Não, minha senhora, é que essas roletas são muito estreitas, acho melhor a senhora não tentar, vá pela frente, por favor.
Com a confirmação do trocador, a gordinha não se deu por vencida.
- Ah, quer dizer que o senhor está  me chamando de gorda?
Pois vou passar sim e quero ver quem vai me impedir. Toma aqui o dinheiro da passagem, não vou pela frente droga nenhuma!
Bem, a essa altura, os passageiros que prestavam a atenção no impasse, começaram a cochichar e a darem risadinhas. Uns achavam que ela conseguiria, mas a maioria não acreditava nisso, o clima estava ficando mais tenso e além da minha irmã, no meio dos passageiros estava um senhor levemente embriagado, ou seja, um pinguço, com cara de quem iria aprontar.
A gordinha então criou coragem, fez cara de desprezo para a torcida e mais ainda para o trocador e se jogou para frente, num golpe firme e decidido.
Mas o resultado foi crítico e previsível, ela engasgou-se na roleta, ficou uma parte da barriga mais a frente, outra parte presa, juntamente com a protuberante bunda, se é que me permitem ser mais popular.
Todos torciam para ela se desenrascar, mas cada vez que ela empurrava a barriga pra frente ia ficando mais vermelha, de raiva e também pela força descomunal que devia estar fazendo sobre a pobre roleta.
E para piorar a situação da nossa gordinha, ela não pôde segurar e o pior aconteceu:
Ela soltou um pum bem alto, resultado do nervoso e da força feita pela pobre mulher.
Mas o pum não foi em vão, ela conseguiu passar pela roleta de uma vez só.
Ufa, o pessoal meio que  constrangidos com a cena viraram a cara, para rirem baixinho, afinal a pobre senhora havia vencido uma batalha pessoal, apesar do famigerado pum que ela soltou.
Mas não era mesmo seu dia de sorte. O passageiro ligeiramente alcoolizado não teve a mesma atitude dos demais e depois de uma gargalhada bem alto ele disse:
- Liga não minha senhora, todos aqui também peidam, eu peido, o motorista peida, até o trocador peida!
A gordinha estava saindo de fininho para não olhar para a cara de ninguém após aquela vergonha toda, teve toda a atenção dos passageiros voltadas para ela, até os que nem estavam acompanhando sua saga na roleta.
Minha irmã, que ri até em velórios, estava se contendo, mas não pôde segurar a risada, após ouvir o que o bêbado falava. Além dela é claro, todos riram muito.
A senhora totalmente vermelha de vergonha e de raiva foi caminhando devagar, pedindo licença e puxou a campainha para descer.
O bêbado continuou falando umas bobagens ao trocador.
Todos voltaram a atenção para suas vidas e a viagem prosseguiu calma, como sempre, no trajeto Centro da cidade até a Penha.

Obrigado à minha irmã Vera por ter me contado essa aventura urbana.

A despedida

Estava eu em setembro de 1997 na estação de trem Santa Apolônia, em Lisboa, me preparando para uma viagem relâmpago até Madrid.
O motivo da viagem era conseguir a autorização que me deixaria legalizado  para trabalhar e viver em Portugal com minha família.
Meu trem chegou à plataforma e logo me preparei para embarcar, meu lugar ficava na janela, onde poderia ficar mais confortável, já que a viagem duraria a noite inteira.
Eram dezenove horas e ainda tínhamos sol forte pois estávamos em pleno verão europeu.
Pois bem, uma cena logo me chamou a atenção:
Um jovem casal estava se despedindo na plataforma, ela,  uma bela jovem dos seus vinte e poucos anos, mochila às costas e se preparando para a partida e ele também regulando idade com ela. Eles se beijavam bastante, abraços e mais abraços, havia até um lencinho na mão da princesa, o trem deu o último aviso da partida, eles se abraçaram mais uma vez, um longo beijo, com direito à choro.
Uma cena de novela, pensei:
“Que lindo, um casal verdadeiramente apaixonado e tão jovem, é, o amor existe mesmo...” .
Ela por coincidência sentou-se ao meu lado, era realmente bela, cabelos bem tratados, castanhos até a cintura, sim, formavam um belo casal apaixonado.
Ela se curvou um pouco, invadindo meu espaço para dar tchau e mandar mais beijinhos para ele, que foi ficando na plataforma, o trem partindo, ele ficando mais e mais até sair do alcance daqueles olhos apaixonados.
Ao final disso ela se aconchegou na poltrona, sem se preocupar comigo.
Percebi que dois rapazes chegavam ao nosso vagão, um mais alto, roupa de alpinista, botas, mochilas, roupas de quem estava partindo para uma aventura.
Ele passou por nós e deu uma olhada de alguns segundos para a jovem apaixonada, me chamou a atenção o fato dela também ter retribuído o olhar.
"Estranho", pensei. Mas não liguei, devia ser coisa de jovens, que não resistem a uma bela aparência.
A viagem prosseguiu, mais alguns minutos e reparei que o rapaz estava se virando para trás e olhando a jovem apaixonada com alguma freqüência.
E o que é pior, senti alguma receptividade da jovem.
Aquilo me deixou cismado, será que essa menina, que faz trinta minutos atrás estava chorando por causa do seu amor na plataforma estaria cedendo ao rapaz do trem?
Com aquele barulho dos trilhos e o pequeno balanço do trem, não demorei a pegar no sono.
Lá pelas nove horas da noite acordei e fui procurar o banheiro. A jovem não estava mais ao meu lado, fui para o próximo vagão, onde havia um bar, tamanha foi minha surpresa ao ver a jovem apaixonada sentada ao lado do rapaz alpinista, numa animada conversa.
Não pude evitar um sorriso não sei se achando graça da cena ou rindo da minha inocência inicial, quando admirei aquele casal da plataforma achando que era um belo exemplo de amor sincero.
Pois bem, fui ao banheiro, fiz um lanche rápido no bar. Eles continuavam trocando olhares e sorrisos, numa conversa que não os deixavam ver mais ninguém à sua volta.
Minha fé no amor estava abalada!
Voltei ao meu sono até que finalmente chegamos à capital espanhola.
Pude ver o jovem casal: a apaixonada da plataforma e o jovem alpinista, de mãos dadas, caminhando na minha frente.
Senti pena do camarada que ficou naquela plataforma de Santa Apolônia, mas não pude mais pensar nisso, estava muito preocupado em encontrar o Consulado Português, resolver minhas pendências e retornar à Portugal.
Correu tudo bem, voltei no final da tarde, mas alguma coisa mudou no meu conceito de amor, pelo menos entre os jovens.

Nossas viagens

Na minha primeira ida à Madrid, marquei o hotel, mas não tinha a menor idéia de como chegar, sabia que era perto do EL CORTE INGLÊS uma loja imensa de departamentos, muito famosa pela Europa e que era perto da Porta do Sol, bem no centro de Madrid, um lugar bem conhecido, onde os espanhóis se reúnem para protestar contra o governo, para festejar jogos do Real Madrid, enfim, um lugar que pensei ser fácil encontrar.
Pois bem, depois de rodar bastante à procura e sem sucesso, resolvi parar em frente a um guarda, devidamente fardado  e perguntei, me esforçando para arranhar um castelhano tupiniquim..
Falei falei e ele nada de entender, de repente me lembrei da tal referência: EL CORTE INGLÊS, aí foi meu erro:
- Fica pierto del El Corte Inglês...
- O guarda me olhou por uns segundos, sorriu e começou a falar em INGLES comigo!!!
- Minhas filhas davam gargalhadas dentro do carro, pois sabiam que eu não entendia nada em inglês e eu olhava para ele  tendo que fingir estar entendendo TUDO e pedia silêncio para as duas.
Até que fui embora e continuei perdido...
O guarda pensou que eu queria que ele falasse em inglês comigo...
Foi uma festa!!!
Acabei encontrando o Hotel, parei o carro num estacionamento em uma rua a uns 2 quarteirões de distância, foi onde consegui parar, o trânsito em Madrid é mesmo infernal.
Quando chegamos no hotel descobri que havia vaga na garagem deles.
Aí deixei-os no hotel e fui buscar o carro.
O que seria algo rápido e normal se transformou numa outra aventura em menos de 30 minutos...
Acabei me perdendo, as ruas pareciam todas iguais,,, dei de cara com uma rua que era contra-mão, teria que dar uma volta imensa para voltar até a rua do Hotel.
Andei, andei, direita, esquerda, direita e quando dei por mim estava numa auto-estrada!!!
Pensei:
- Ferrou!! estou perdido agora...
Com muito custo encontrei um retorno e voltei ao centro de Madrid.
Vi um sujeito na rua e parei para tentar me informar.
Parei o carro e perguntei, olhando para o endereço no papel.
O cara se recusava a me dizer alguma coisa, fazia gestos coma mão que não, não e eu fiquei P da vida!!
No final ele conseguiu fazer gestos para que eu entendesse que ela na verdade era SURDO-MUDO!!!
Meu pai, ainda por cima vou perguntar a um surdo-mudo!!!
Rodei bastante, a família estava já preocupada comigo, quando entrei na recepção, suando, cansado e com vontade de rir e de chorar de tanto nervoso.
Essa foi mais uma aventura da família Benício em território espanhol.
Outras ainda viriam, disso ninguém tinha dúvidas.

O padre

Lá estava gozando da minha primeira década de vida, devidamente matriculado na Escola Municipal Ernesto Nazareth, no subúrbio do Rio de Janeiro.
A fase era boa, os anos sessenta, muita coisa acontecendo e eu não tomava conhecimento, sabia que o homem havia pisado na Lua, vi o selecionado Canarinho levantar o Tri no México, nem imaginava o que estava acontecendo por trás das cortinas da política, só sabia que era um General atrás do outro no Governo.
Meu interesse era brincar, ir à escola, implicar com minhas irmãs e esperar meu pai chegar à noite, torcendo para que seu humor estivesse bom. Assim ele traria alguma coisa de interessante para nós as crianças daquela casa.
Um presente que ganhei de minha mãe e que eu nem imaginava ganhar foi uma capa de chuva.
Não era uma capa qualquer, era de cor azul escuro, tinha grandes bolsos e era bem comprida, quase escondia meus dedos, tive que dobrar as mangas.
E como detalhe mais importante era o boné que vinha acompanhando, era do tipo touca de banho, franzida na testa. Eu achei o máximo!
Fiquei por muitos dias rezando para que chovesse, só assim poderia estrear minha capa bonita. Ficava às vezes diante do espelho imaginando a reação dos colegas do colégio.
- Vou fazer sucesso, lá ninguém tem uma capa bonita assim.
Tinha até um dos meninos que levava um plástico branco, que parecia improvisado, com certeza seria mesmo. Nem todos podiam comprar uma capa tão elegante quanto a minha capa de chuva.
Depois de dias angustiantes, quando acordava perguntava logo para minhas irmãs:
- Ta chovendo?
E elas riam de mim e respondiam sempre:
- Não,  vai fazer o maior sol.
Mas numa manhã dessas obtive a resposta tão esperada.
Chuva, finalmente chovia, uma chuvinha fina, mas suficiente para que eu estreasse aquela maravilha de capa.
Mal tomei o café de tanta ansiedade, me preparei, peguei minha pasta, lancheira e ela, a capa mais bonita que havia visto na vida. Se bem que não me lembrava de ver muitas, a não ser em filmes preto e branco da época.
Ia caminhando para o colégio, pouca distância, mas naquele dia parecia uma eternidade, os 10 minutos mais longos da minha vida.
O colégio ficava numa praça e minha rua fazia esquina com ela. Fui dobrando a rua e de longe avistei alguns colegas na porta do colégio.
Me apressei, tinha que chegar logo para eles verem como estava imponente.
Fui me aproximando e percebi que eles comentavam, uns puxavam os outros e começaram a rir.
Fiquei surpreso, será que é comigo? Não poderia ser.
Mas era, além de rirem bastante e me apontarem, um deles disparou a seguinte frase:
- Lá vem o padre!!!!!!
- Padre!, Padre!!
Meu mundo caiu, quis tirar a capa, mas não podia, minha irmã estava ao meu lado, ela não deixou.
Passei pelos caras fingindo que não estava ligando e eles continuaram a me chamar de padre.
Entrei logo na sala e rapidamente retirei minha linda capa, dobrei e coloquei numa sacolinha que acompanhava a vestimenta.
E agora? Não mais queria usar a capa para não me colocarem esse apelido de Padre, mas não poderia recusar pois minha mãe não aceitaria minhas alegações, teria que usar de qualquer jeito.
Então minha torcida mudou quanto ao tempo. Todas as noites rezava e pedia para que São Pedro não mandasse chuva.
Para minha sorte, no domingo seguinte fomos para o cinema ver o famoso Festival Tom & Jerry.
Estava chovendo, mas pelo menos não estaria indo pra escola enfrentar os colegas sacanas de sempre.
Fomos eu e  minhas 3 irmãs, duas mais velhas e uma mais nova.
E na volta, aconteceu um acidente que seria a minha salvação:
Na hora de descer do ônibus, minha capa agarrou no ferro que estava perto da porta, não percebi e desci, senti um puxão e um barulho.
Era minha capa se partindo ao meio, rasgou toda, eu tomei um susto danado, mas na hora senti um alívio imaginando:
- Estou livre dessa capa nojenta!
Minhas irmãs foram minhas testemunhas na hora de contar o fato aos meus pais.
Eu estava finalmente livre daquela capa do Padre!

Capitão AZA (Wilson Vasconcelos Vianna – em memória)

Quem leu a crônica O padre vai estar familiarizado com essa que inicio, mas para quem não leu, conto que a história se deu no Colégio Ernesto Nazareth, nos anos sessenta, talvez em 1966 ou 1967, não sei precisar.
Como o título sugere, é uma história sobre o grande herói da meninada da minha idade, que hoje são os cinqüentões. Quem não se lembra desse sujeito, que aparecia nos programas vestido à caráter como um aviador, com um capacete lindão, com a letra A em destaque.
Sim, o nosso Capitão AZA era demais! Estava sempre sorrindo e distribuindo bons conselhos, dizem que seguindo a cartilha dos militares, não me importo, as coisas boas não podemos deixar de enaltecer e isso era muito bom. Além é claro dos desenhos que passava, maravilhosos desenhos que me faziam viajar por entre nuvens, numa atmosfera de que tudo se pode fazer, voar, cair de grandes alturas e ficar sem um arranhão, essas coisas de super-heróis.
Minha alegria foi tamanha, quando soubemos que o nosso herói nos visitaria na escola, ninguém acreditou na hora.
Não seria possível, um cara que poderia estar voando para qualquer lugar do planeta não perderia seu tempo vindo a um colégio da Zona Oeste, um bairro de classe pobre, como era o nosso.
Mas como os professores garantiram e pediram para fazermos cartazes gigantes, com desenhos em homenagem à visita ilustre, passamos a acreditar e a sonhar com o radiante dia.
A expectativa durou pouco, faltavam alguns dias apenas, seria numa sexta-feira, todas as turmas foram convocadas, era como um ato cívico! O capital AZA desceria dos céus de Campo Grande e pousaria solenemente no pátio do nosso colégio.
Começamos as discussões sobre o meio de transporte que ele usaria.
As apostas estavam em no mínimo um helicóptero, daqueles de guerra, grandões, cheios de armas apontadas para todos os lados, seria um sonho ver essa máquina de perto.
Os mais sonhadores, como eu por exemplo, apostavam em uma pequena nave espacial, parecida com a que ele usava no programa, afinal não teria graça chegar de helicóptero se ele poderia vir de nave espacial.
Até as mães foram convocadas, o dia amanheceu e o pátio do colégio estava cheio de cartazes e desenhos de todas as turmas e de todas as idades.
Minhas irmãs eram mais velhas, de turmas dos grandões de 9 ou 10 anos, minha turma era de 6 a 7 pelo menos.
Acordei nervoso, queria logo que chegasse a hora.
O horário anunciados era de 11:00 horas da manhã. Bom, assim ficaria perto do recreio, nem haveria aula direito, os alunos estavam com as cabeças lá no céu, de onde desceria em triunfo total o nosso herói da TV TUPI, nosso herói Capitão AZA.
Acontece que as coisas no Brasil quase sempre atrasam e mesmo ele sendo um militar renomado, acostumado em voar pelo planeta inteiro, não conseguiu chegar na hora.
O tempo ia passando e a expectativa aumentando, a cada helicóptero que sobrevoava a escola, bem longe, acontecia o maior frisson, era aquela gritaria:
- Lá vem o Capitão AZA!
E não eram apenas as crianças, as mães também gritavam bastante.
Eu ainda apostava que viria uma nave espacial, já estavam me gozando, os mais pessimistas já achavam que ele não viria, que talvez tivesse que ir para algum lugar acabar com alguma guerra no planeta.
Eu ainda confiava e levava alguns coleguinhas a acreditar em mim.
Depois de alguns minutos após a hora marcada, quando a criançada já estava com o pescoço doendo de tanto olhar para cima e gritar:
- Lá vem o capitão AZA!!!
a cada avião, helicóptero ou mesmo um urubu maior, que sempre era confundido com avião, eis que alguém teve a ideia de olhar para o portão do colégio e para o espanto de todos, para a desilusão de todos, para a tristeza de muitos, eis que uma Kombi bege para na frente do portão.
O povo ficou num silêncio mórbido! Todos se olhavam incrédulos, eu tive vontade de chorar ou de dar uma gargalhada, de tão nervoso:
O Capitão AZA desceu da Kombi, olhou meio sem graça, por causa do silêncio e acenou com a mão, gesto característico do programa.
Ele nem estava usando o super capacete!
Depois de alguns segundos, uma das mães deu o primeiro grito, puxando o couro que viria em seguida:
- Viva o Capitão AZA! Viva o Capitão AZA!
Aí foi uma histeria generalizada, ele entrou no pátio ainda com um sorriso meio amarelo mesmo assim, não poderia imaginar que estávamos esperando que ele fosse um super-herói de verdade.
Os que apostaram em helicóptero, avião super-sônico ou nave espacial, como eu, fomos avacalhados pelos meninos maiores.
Mas na verdade eu agradeço ao nosso herói por essas emoções e principalmente por ele ter feito parte da minha infância de forma marcante.
Obrigado Capitão AZA!

Voltar para o conteúdo | Voltar para o Menu principal