José Benício

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Poesias

Textos

Meu(s) heterônimo(s)

Inventei um heterônimo
Pra ser medíocre sem medo
Fazendo versos anônimos
Confessando meus segredos
Quis que ele fosse depravado
Pra chocar puritanos de plantão
Fazer versos debochados
E rimar amor com paixão
Meu heterônimo é um ser estranho
Que habita meus melhores pesadelos
Um calhorda sem tamanho
Que faz versos por dinheiro
Inventei um heterônimo santo
Que se embriaga de mulheres da vida
Faz amor e poesia no canto
Em bordeis pelas avenidas
Meu heterônimo será meu avesso
Minha parte romântica agonizando
Meu ego altruísta e réu confesso
Minha sede de fazer versos abrandando
Meu heterônimo, puro deboche
Fazendo versos em plágios rebuscados
Dos sonetos de Florbela ou poetrix de Leminski
Enganando musas e críticos desavisados
Fiz um heterônimo ainda anônimo
Por covardia de um ser lacônico
Com versos que viraram sinônimo
Do falso poeta e seu falso heterônimo!

Versos idos

I
Foram tantos
Os meus versos idos
Na dança do sentir
Fiz versos os mais lindos
Quando mais sofri.

II
Compus versos
Discutíveis
Outros sem comprometer
Mas os melhores versos
Fiz ao sofrer.

III
Me saíram versos
Quando queria
Ou não queria
Mas os mais diversos versos
Fiz quando sofria.

IV
Portanto carrego hoje
Esse dilema atroz
Se versos lindos já não faço
É por que não sofro mais!

Língua do “P”

Pedro Pereira Pimentel
Pobre pescador
Partiu pensando passar
Perante porta pintada
Para poder pedir
Perdão paroquial
Pena perdida
Pois Pedro Pereira Pimentel
Pobre pescador
Parece precisar
Procurar pelas pedras
Podendo porém
Prescindir pelo perdão pedido
Pedro Pereira Pimentel primeiro
Pôde presenciar pesaroso
Pelos pêlos perdidos para Paulo Paranhos
Primogênito preferido
Pelo pai
Pedro Pereira Passos Pinto Paranhos
Professor prolífero
Parente presente para prosperar
Pelos Paulos Pedros Pereiras
E finalmente na língua do “P” terminar.

Último pedido

Quando leio poetas como:

Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos,
Carlos Drummond, Cora Coralina
e outros não menos densos.

Percebo o quão minha poesia rasteja.
É pedinte.
É indigente.

Portanto, quando morrer peço a quem me tem apreço,
mesmo sabendo que não mereço:

Coloquem esses livros de maneira discreta
junto do meu corpo que pensava ser poeta...

Sonhei com a morte

Não que eu a queira
Sonhei por sonhar
Sem eira nem beira
Ela estava faceira
Lânguida e provocante
Usava perfume de amante
Jogando charme barato
Anel de diamante
Roupa de fino trato
Tentou me flertar
Com promessas celestiais
Quis até me provocar
Com rimas e tudo mais
Fui escravo por um instante
Mas a vida ainda me interessa
Não quero a morte
Fui firme e relutante
Falei pra ela: pra que a pressa?
Acordei mais confiante
Foi apenas um sonho, tive sorte:
Sonhei com a morte.

Repentes rebeldes repentinos

Morte e vida Florentina
O mundo não fala dos fracos
A vida não é somente serpentina
Perfume bom está em pequenos frascos.

Sorte e morte juntas caminham
Ombro a ombro, sob o sol Sertanejo
A vida não é queijo fino e vinho
E a roça só sobrevive com manejo

Corte e cura, na aldeia se nota
O doente sem dente sofre calado
Pajelança ou UPA, quem se importa?
No final algum corpo será velado.

Cumpra sua promessa ou fuja como covarde
Mas não jure em falso, jure com firmeza
Mesmo com a mentira que agora te invade
Jure de pés juntos e com toda clareza

O céu foi feito pra todos os pecadores
E o arco íris não é de uma cor somente
Rabisque seu céu como os pintores
Sem cavalete, sem pincel, como indigente.

Desfile nos shoppings de chinelo surrado
Não compre Saint Laurent no cartão
Dê um sorriso a quem está do teu lado
Volte de táxi, esqueça seu carrão.

Doe a uma criança pobre
A alegria do sanduíche de queijo
Se puder dê também o que não pode
E aceite em troca só um beijo

Fiz versos sem sentido aparente
Que podem ser odiados, não ligarei
Assim como versos em repente
De repente já fui e nunca cheguei...

Macumba’s

Banho de pipoca
A sorte invoca
Banho de sal grosso
Acaba o alvoroço
Banho de arnica
Pra ficar bem bonita
Banho de agrião
Pra aquecer o coração
Banho de lama da praia
Pra ficar linda de saia
Banho quente com romã
Pra ficar  sexy com calcinha de lã
Banho de pó de café
Pra ganhar mais fé
Banho de água da cachoeira
Pra não pensar besteira
Banho de açúcar mascavo
Pra me fazer seu escravo
Banho com água Perrier
Pra parecer bem chiquê
Banho de azeite de dendê
Pra você me querer
Assim o feitiço fica perfeito
Você de banho tomado
E pra sempre presa em meu peito...

Poema de reunião

Versos opacos
Vazios literatos
Colegas ao quadro
Problemas sistêmicos
Poemas tristonhos
Rimas enfadonhas
Decisões importantes
Rimas cortantes
Trovas em viés
Soluções, talvez.
Beleza jamais!
Lá fora:
Aviões chegam
Aviões decolam...

A rima que não se faz

Rua abaixo
Rio acima
Não faço
Nem desfaço
Da minha rima.

Fogo subindo a ladeira
Madeira levada, propina
No desafogo do poema
Inventei minha rima.

Vento que sobe a montanha
Beijando o coqueiro na praia
É sopro na teia da aranha
É vento que levanta saia

Chuva que chega torrencial
E entope o ralo, é temporal
Vaza e quase se cala
Somente o poema fala!

Mato que cresce
Esconde os pecados
De quem padece
E a rima arrefece

Rei sem rainha
Coroa sem pedestal
De súbito a tardinha
Traz a noite pro quintal.

Não faço
Nem desfaço
Minha rima
É doce feito melaço

Poema sem ponto final...

Manhã de Agosto

Hoje acordei lacônico
Estiquei-me na cama
Com ar irônico
Não dei bom dia para a manhã de agosto
Fui pro banho meio a contragosto
Bebi café de hoje
Li o jornal de ontem
Surpreendi-me com a "mesmice" de sempre
Brinquei com o cão
Que balançava o rabinho
Pedindo mais carinho
A filha querendo entrar no banheiro
Eu com a barba por fazer
Cheio de espuma no rosto
Saio totalmente a contragosto!
E esse mês que não passa
Esse tal mês de agosto...

Ensaio de poesia sem acento

Meus senhores, minhas senhoras, senhoritas.
Esse ensaio de poema, precisa de muito cuidado
Estou sem acentos no meu teclado.
Nada escreverei que precise deles, os acentos.
Terei que excluir aquela pequenina parte, do lado esquerdo, que
pulsa, se apaixona e nos inspira...
Nada direi que precise do acento agudo, circunflexo.
Me perdoe se ficar sem nexo.
Mas os poemas precisam ser escritos, sem falhas, sem amarras
Mesmo sem os acentos.
Andaram retirando alguns, para mim uma ajuda nessa hora.
Para a lusofonia talvez, para brasileiros, africanos ou portugueses
E para mim hoje foi de grande valia, afinal essa minha mal enjambrada poesia precisava nascer.
Pensei que nada conseguiria sem eles, os acentos...
Mas estou me saindo bem, posso perguntar se concordam comigo?
Ah, interrogar eu posso, virgula talvez, fica sem acento agudo.
Que chato! Exclamar eu posso.
E finalmente, finalizar com o imponente (.) Ponto!

Quando cai a noite

A lua lá de cima
como uma mãe zelosa vela.

As luzes das cidades
acendem-se sob os telhados

E a noite se aconchega
cautelosa nas janelas.

Os quintais clareiam-se
e as almas perambulam

Na eterna guerra dos sonhos
e das quimeras.

E no céu as estrelas lá de cima
feito típicas concubinas

Torcem pelos amantes
que se esfregam nas vielas.

Raio X

Pulsa na corrente sanguínea
Do poeta: rima

Bate no coração latente
Da musa: carente

Lateja na aorta
Da prosa: quase morta

Verseja em tarde quente
Poema: ardente

Corre entre versos tropeçantes
Soneto: apaixonante

Cessa a sílaba indecisa
Estrofe: concisa

Rompem-se ricas artérias
Versos: etéreos

Diabos na garrafa

Meus diabos guardo numa garrafa
Quando quero fazer maldades
Abro-a e pego conselhos diabólicos
Se me arrependo rezo feito cristão
Rogo sincero por perdão.

Se estou numa porta de igreja
Dou-lhes desprezo, os desconjuro
Mas quando estou indo pro gueto
Levo-os como amuleto seguro

Se a garrafa se quebra e um deles foge
Encontro-o na sarjeta
Comendo ratos, lambendo lixo
Ou aos finos tratos e etiqueta
De black-tie e muito luxo

Esses antagonismos convivem
Sem intervenção governamental
Faço minhas guerras, minhas tréguas
Minhas brisas transformo em temporal

Vivo em fronteira minada
Entre o que sinto e o que finjo sentir
Solto meus diabos nos sonhos, na madrugada
Prendo-os enquanto vivo a sorrir.

Soneto sereno

Toda serenidade possível terá
Esse soneto que hora apresento
Para confusão não arranjar
E ao leitor ser quase um alento

Soneto com cunho acadêmico
Seguindo as normas oficiais
Se puder um jeitão ecumênico
Sem esquecer regras gramaticais

Quem sabe seja um soneto normal
E ainda deixe uma boa impressão
Do poeta que não quis ser formal

E até agora não criou confusão
E assim não pareça soneto banal
Ao leitor leigo, poeta ou não!

Uma mulher

Se um dia quiser
Amar outra mulher
Vou escolher à dedo
Em segredo, se puder

Não farei seleção rigorosa
Mas não aceitarei uma qualquer
Não precisa ser linda, poderosa
Basta ser minha mulher

Terá que ser sincera
Olhar-me e me entender
Habitar minhas quimeras

Amar-me sem ter que sofrer
Ser feliz assim se puder
Sendo só minha, mulher.

Tejo

Tuas águas se movem para o mar
E já levaram tantas naus lusitanas
Aos confins do desconhecido conquistar
Por longas noites, meses e semanas

Tejo, que me viu passear
Em dias chuvosos há alguns anos
Por ti passei querendo afogar
Minhas culpas e tantos desenganos

Tejo, que da poesia é pilar
Como a musa virgem e puritana
Que um dia tentei arrebatar

Num soneto que da minha alma emana
Mas que não consegui terminar
Antes de tu, Tejo, desaguar no oceano...

Soneto do arrependido

O amor um dia
Bateu na minha porta
Hesitei e não atendi
Que perfeito idiota!

Depois abri correndo
Não consegui mais vê-lo
E hoje a vida fenecendo
E eu aqui sem tê-lo

Se adivinhasse
Teria aberto e dado um sorriso
Talvez me apaixonasse

Depois uma rosa oferecesse
Um poema rabiscasse
Ai amor! Se eu soubesse...

Dos primatas

Antes corremos
Depois andamos
E agora tropeçamos
Como humanos...

Frio, chocolate quente e um livro

Lá fora um frio “polar”
Eu na minha cama
Chocolate quente
Você ausente
Um Neruda ou Ferreira Gullar
E uma tarde inteira pra sonhar...

Noite infecunda

Envelheço a cada piscar d’olhos
Padeço a cada instante infecundo
Entristeço se não me reconheço
Nos meus sonhos mais profundos
Entardeço junto com a árvore no quintal
Esmoreço a cada folha caída em temporal
Não esqueço tudo de bom ou de mal
E sem apreço, rezo o terço matinal
Enlouqueço a meia luz, madrugada à dentro
Desfaleço entre versos e poemas densos
Que não reconheço e fico triste e fico tenso.

Art Nouveau

Hoje acordei
Mais ou Menos
Mais carente
Menos confiante
Hoje talvez faça poesia
Após o sexo matutino
Antes do capuccino
Hoje acordei
Menos ou Mais
Menos poeta
Mais leitor
Acordei mais alerta
Menos Art Nouveau.

(De) Súbito

Como um raio
a riscar
o céu
surge
de súbito
a palavra
amor.

E as nuvens
que
se acotovelavam
pelo vento
derramaram distraídas
a luz do infinito
- No azul dos olhos teus.

E vieram depois:

A chuva
pra molhar
teus lábios.

A neve
pra mostrar
os caminhos.

E a noite
pra embalar
teus sonhos...

Lamentos

Quero a liberdade dos poetas de além mar
Quero o ópio mais puro que há.
Queria a inspiração de Pessoa em Caieiro
Queria a instituição do sofrer por inteiro
Quero a visão do meu interior indevassado
Quero a sofreguidão do autor censurado
Quero sentir a imperiosa dor da solidão
Queria e tanto quero o que já não espero: paixão!

Voz de mãe
(Para uma jovem amiga e mãe)

Haveria voz de mãe?
Ou voz da mulher
É como as nuvens
Mudando conforme o vento?
Se acaso isso for verdade
Tua voz é de serenidade
E a minha fica ao relento...

O (nosso) vazio

Uma busca incansável
pelo que não sei
mas que anseio.

Esse vazio insuportável
dito, vazio insuperável
sente falta
do que nunca veio.

Um desafio gostoso
esse ter sem saber
um prazer libidinoso
um sonho tenebroso
um acordar sem entender.

Onde, o que?

O que não procuro
Me faz falta,
Me causa um vazio
Feito poema obscuro
Num quarto sombrio

O que me falta
E nem mesmo desconfio
É fruto maduro
É bicho no cio

O que espero
Sem saber se procuro
É alma sem rumo
É corpo sem prumo

Ao que me esmero
Num poema taciturno
Com um verso frio
De poeta sem futuro...

Anjos do pecado

Quando o amor
É de arrasto
Com chicote
Desejo e sangue
Dois anjos do pecado
Se fundem
Se fodem
No mangue.

Em gritos de pavor
E penetrações celestiais
Das carnes em fervor
O gozo se faz.

Dois anjos num apenas
Entre toques
Em quarentenas
Corpo nu e suado:

Anjos do pecado!

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